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Um mundo sem sorrisos: Como as máscaras podem transformar nossas interações diárias- Blog Giga Medical

Giga Medical – Trazendo o melhor em equipamentos de proteção e hospitalares

RIO – Nosso cérebro está muito ocupado nesta pandemia. Além de passar o dia recebendo notícias ruins enquanto tenta se acostumar ao cotidiano do isolamento social, tem que se adaptar a uma forma nova de interagir com outras pessoas sempre que precisamos sair às ruas, num mundo repleto de máscaras. Não é fácil. Indispensáveis no combate à disseminação do coronavírus, os equipamentos de proteção para o rosto bloqueiam mais do que agentes infecciosos. Ao tornar invisível grande parte das nossas expressões faciais, os acessórios tapam informações fundamentais para todo tipo de conversa.

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As máscaras se tornaram obrigatórias em espaços públicos do Rio e de milhares de cidades no país. Desde quinta-feira, quem sair sem a proteção no estado de São Paulo estará cometendo infração sanitária e crime de desobediência. Um projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados pode tornar o equipamento compulsório no Brasil todo. É uma nova realidade. Segundo profissionais da saúde pública, mesmo após a quarentena, vamos conviver com o vírus por muito tempo. E, enquanto houver Covid-19, haverá máscaras. Nosso cérebro vai ter que se virar.

Pode o uso das máscaras causar nesta geração um impacto maior do que aquele criado pela camisinha nos anos 80?

“Somos criaturas profundamente sociais”, escreve o neurocientista David Eagleman em seu livro “O cérebro — Uma biografia” (Editora Rocco, 2017). Nossa mente faz avaliações coletivas constantemente, diz ele, mas precisamos dos movimentos às vezes minúsculos da face para entender as intenções dos outros e expressar as nossas. O cliente no supermercado está sendo simpático ou irônico? O funcionário da farmácia sorriu quando dei “bom dia” ou reagiu com frieza? Aquela pessoa correndo na minha direção está tranquila, se exercitando, ou com medo de algo que viu?

A gente responde a esse tipo de pergunta o tempo todo no dia a dia, tão automaticamente que nem se dá conta. Mas, para isso, contamos com todo esse conjunto de informações não verbais que são como emojis numa conversa pelo WhatsApp. Com a máscara, a comunicação fica mais restrita. Segundo especialistas, para manter a qualidade de nossas interações, teremos que nos olhar nos olhos, gesticular mais e verbalizar com mais frequência as nossas intenções.

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— A máscara cobre metade da tela. A gente não vê e não mostra sorriso, boca torta, nariz franzido… É como numa conversa picotada pelo celular. Você perde algumas palavras. Dá para ter uma ideia geral do todo, mas você gasta mais energia para preencher as lacunas — explica o psiquiatra e professor Daniel Barros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. — Na conversa com máscaras, estamos recebendo todas as palavras, mas não as expressões faciais. Ficam essas lacunas para a gente preencher. Dá uma sensação de comunicação truncada, que exige mais esforço do cérebro.

Aqui, Saulo Segreto interpreta tristeza, medo e desprezo Foto: Leo Martins / Agência O GLOBO
Aqui, Saulo Segreto interpreta tristeza, medo e desprezo Foto: Leo Martins / Agência O GLOBO

A pesquisadora Natália Mota, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), estuda transtornos mentais como a esquizofrenia e o autismo. Ela explica que, mesmo em interações sem obstruções, pessoas com esses distúrbios podem experimentar sofrimento porque têm dificuldade de ler expressões faciais. Com as máscaras, muita gente que não carrega esses transtornos pode sentir dificuldades de se comunicar sem as “pistas” fornecidas pelo rosto. De acordo com a cientista, essa lacuna afeta os indivíduos em graus diferentes. Quem sofrer, diz ela, deve buscar formas de amenizar essa limitação:

— O primeiro passo é tomar consciência da situação. Se você sabe que as pessoas não estão recebendo as suas informações com facilidade, verbalize. Não adianta apenas sorrir. Diga “bom dia”, pergunte “como você está?”. Gesticule. Os italianos, por exemplo, usam muito as mãos para enfatizar as emoções.

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Os olhos também transmitem muita informação, mas aí surge outro desafio. Experimente olhar as pessoas nos olhos quando for ao mercado. A maioria vai desviar o foco. Mesmo quem se “atreve” a encarar os olhos de alguém pode não ler seus sentimentos facilmente sem as informações do rosto todo. Há um exame de laboratório, o RMET, que avalia nossa capacidade de “ler a mente” de outras pessoas observando fotografias de seus olhares. Indivíduos com poucas habilidades sociais têm bastante dificuldade. É mais um exercício a adotar nesta fase da história do homo sapiens, diz o professor Rodrigo Grassi, do Instituto do Cérebro da PUC-RS, em Porto Alegre:

— Estamos vivendo um experimento ecológico sobre a leitura da mente através dos olhos. Vamos ser obrigados a treinar essa habilidade. Por um lado, induzir as pessoas a se conectar pelos olhos pode ser positivo. Por outro, pessoas com dificuldade nesse sentido podem sofrer mais.

A sociedade está sob tremendo estresse. Há o medo de uma doença que está matando nossos semelhantes e a necessidade de se adaptar às formas de combater o coronavírus. Na década de 80, a descoberta da Aids nos obrigou a incorporar a camisinha nas nossas relações sexuais. Quase 40 anos depois, a Covid-19 impõe aos seres humanos a necessidade do uso das máscaras e do distanciamento físico, prejudicando nossas interações sociais básicas, gerando imagens distópicas de ruas que estariam desertas se não fossem poucos de nós caminhando com os rostos cobertos e os olhos cansados de tantos riscos e mudanças. Como isso vai nos impactar a longo prazo?

— Nunca mais seremos os mesmos. As máscaras tiram os rostos da sociedade, você não reconhece as pessoas. O impacto disso tudo depende do que está por vir. Quanto mais tempo a gente fica em isolamento ou usando máscaras, quanto mais pessoas morrerem, mais marcas essa epidemia vai deixar — analisa a filósofa e psicanalista Viviane Mosé. — O que vem depois não vai ser igual para todos. Uns vão se retrair, nunca mais vão sair sem máscaras ou abraçar alguém. Talvez a gente até elimine os dois beijinhos para se cumprimentar. Mas acredito que, se houver uma vacina, a maioria vai se libertar, buscar a presença do outro, o sorriso que perdemos e que faz tanta falta.

Eventos culturais estão no fim da fila de uma esperada volta a condições “normais” de temperatura e pressão. Nem os otimistas creem que uma peça de teatro possa acontecer, no futuro próximo, sem que público e elenco estejam usando máscaras. Diretor do Instituto Shakespeare Brasil e estudioso da relação entre neurociência e teatro, Ronaldo Marin imagina que os itens de proteção podem ser incorporados ao espetáculo, exibindo intenções diferentes para cada personagem e sendo trocados entre uma cena e outra. Seria como revisitar a Grécia Antiga, quando os atores usavam máscaras para passar emoções.

— Neste momento, o teatro sobrevive por meio das lives. No futuro, quem sabe, a máscara poderia ser um veículo dentro do espetáculo, ganhar uma função de acordo com o texto — reflete Marin, autor do livro “Os avanços da ciência podem acabar com a filosofia?” (Estação das Letras e Cores). — Com os recursos de impressão de que dispomos, poderíamos produzir as mais variadas expressões.

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Fonte oglobo.globo.com

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