Guia Bacurau contra a covid-19 Leave a comment

Blog Giga Medical

Por
Ruben Bauer Naveira

A razão de existir de um país é prover bem-estar aos seus habitantes. Dá vergonha ver-me compelido a iniciar este texto enunciando tamanha obviedade. Porém, se no passado o Brasil pode até ter sido um lugar que merecesse ser chamado de “país”, hoje sua classe dominante sequer faz mais questão de fingir isso. Se há algo profilático que possa decorrer da pandemia de covid-19, é ver liquidada qualquer pretensão a manter aquelas aparências:

– No
Brasil, os leitos de UTI dos hospitais públicos são em menor número
que os da rede privada. Porém o Estado se exime e se omite de
acionar os mecanismos (que existem) para requisitar os leitos
privados vagos, virando as costas para milhares de mortes por mera
falta de atendimento médico;

– O
Brasil responde por 38% do total de mortes de profissionais de saúde
por covid-19 em todo o mundo (a grande maioria auxiliares de
enfermagem, a categoria mais precária dentre eles), tragédia que
grita as péssimas condições de trabalho desses profissionais, em
especial na rede pública;

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– No
Brasil, o auxílio emergencial às pessoas mais necessitadas é
recusado a 37 milhões de requerentes, o que impõe a essas pessoas
arriscar-se ao contágio nas filas às portas das agências da Caixa;
mães de família cadastradas no programa Bolsa Família têm esse
provento suspenso, ainda sem que o auxílio emergencial lhes tenha
sido aprovado; a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do
Ministério Público denuncia haver pelo menos 40 mil casos de
auxílios arbitrariamente negados pelo simples fato de a pessoa ter
um familiar preso; e o presidente da República veta a extensão do
auxílio a categorias como a de catadores de lixo reciclável.

É
neste não-país que se abate sobre os seus habitantes a epidemia da
covid-19.


é sabido que, quando a pessoa chega ao ponto de passar a sentir
falta de ar, devido à doença, é porque ela está com pneumonia há
dias. A falta de ar é sintoma do agravamento dessa pneumonia.

Também já se sabe que a pneumonia da covid-19, mesmo quando a pessoa acometida acaba curada sem chegar a precisar ser internada em hospital, deixa algum grau de sequela em termos de redução da capacidade pulmonar. Somente no futuro se saberá se essas sequelas se revertem com o tempo, ou se serão permanentes.

É nesse contexto que as recomendações dadas pelas autoridades à população resumem-se a essas cinco:

1.)
Fique em casa;

2.)
Se precisar sair, use máscara;

3.)
Lave as mãos com frequência (quando não puder, use álcool em
gel);

4.)
Se tiver febre, use paracetamol;

5.)
Somente procure um hospital ou posto de saúde se começar a sentir a
“falta de ar”.

As três primeiras somente servirão, se a pessoa contrair a covid-19, para ela não propagar a doença, porém não para ela se tratar; a quarta tampouco servirá, porque apenas mitiga um sintoma (e ainda suprimindo uma resposta do organismo à doença, algo que é no mínimo discutível).

A
quinta recomendação, tardia porque a pneumonia – que deixa
sequelas – já começa a atingir um estágio avançado, a cada dia
que passa vai-se tornando inócua para a população de mais e mais
cidades, cujos hospitais já não dispõem mais de capacidade de
atendimento.

Se a pessoa, no que se dirige a um hospital sentindo falta de ar, encontrar leito para internação; se ela, caso complique, encontrar UTI; se ela, caso piore na UTI, encontrar ventilador; se, ainda assim, ela vier a óbito, bem, é da vida, é aceitável que ela tenha morrido de covid-19 desde que tenha recebido o atendimento possível. Inaceitável é ela morrer porque faltou leito para internação, faltou UTI, faltou ventilador.

Inaceitável
é que tudo o que se possa fazer se limite a isolar-se, lavar as
mãos, usar máscara, tomar paracetamol e rezar para que a doença
não chegue ao ponto da falta de ar. Se hospital não vai haver
mesmo, então do lado de fora do hospital tem de ser possível alguma
alternativa de tratamento.

Este
texto baseia-se em levantamentos sobre a covid-19 e sobre as
possibilidades para se lidar com a doença. Contém indicações
terapêuticas que cada leitor pode adotar e praticar por si próprio
– e as comunidades podem abraçar em prol dos seus membros.
Tratamentos que devem ser empregados tanto por quem contraiu a
covid-19 quanto por quem não contraiu mas busca se precaver.

Se
os brasileiros não podem mais contar com o Brasil (muito pelo
contrário, têm de se defender dele), somente nos resta contar uns
com os outros.

Este
texto destina-se, portanto, especialmente a pessoas imbuídas de um
espírito coletivista, que generosamente assumam a tarefa de se
organizar comunitariamente, de modo a fazer chegar a todas as pessoas
das suas comunidades essas possibilidades de enfrentamento da doença.

Nesse
sentido, são dez as recomendações:


Não pire;


Enxágue as narinas e a garganta;


Beba mais água;


Deite de bruços;


Meça sua saturação (oxigenação do sangue);


Turbine a sua máscara de tecido;


Previna as microtromboses;


Previna a tempestade de citocinas;


Se você for diabético, capriche no controle; e


Soberania sobre a própria vida e saúde não se delega.

1.
Não pire:

Não
é verdade que 80% dos casos de covid-19 sejam casos leves, e que os
outros 20% se compliquem. Também existem os casos assintomáticos,
em que a pessoa nem fica sabendo que está com a doença. Justamente
por serem assintomáticos eles não entram nas estatísticas, e assim
o percentual de casos que complicam é seguramente menor do que 20%
(sendo que nem todos eles necessitarão de hospitalização, e ainda
menos necessitarão de intubação).

É
claro que saber disso não garante ninguém, porque alguns irão
mesmo complicar. Mas tenha sempre em mente essas chances de um
desfecho favorável de modo a manter a sua paz interior, por uma
razão muito simples: o estresse eleva os níveis no sangue de uma
substância chamada cortisol, que é um corticoide. Se você pegar
covid-19, o principal fator que fará diferença entre você ter
apenas sintomas leves ou complicar será o estado geral do seu
sistema imunológico. E corticoides debilitam o sistema imunológico.

Parêntesis:
pacientes hospitalizados com covid-19 podem vir a receber
corticoides, mas isso será porque a inflamação nos pulmões já
chegou a tal ponto – justamente pela reação descontrolada de um
sistema imunológico em pane – que não há mais outro jeito, senão
combater a inflamação mesmo à custa de comprometer o que ainda
reste de resposta imunológica à doença. Fecha parêntesis.


tempos que se tornou comum médicos receitarem placebos aos seus
pacientes sem contar-lhes isso, e os pacientes mesmo assim se
curarem. Isto ocorre porque a medicina entendeu que, em muitas
doenças, os fatores psicossomáticos são preponderantes, e assim a
autossugestão faz efeito. No caso da covid-19, em que o desfecho de
complicar ou não dependerá do sistema imunológico, não se deixar
dominar pela angústia e ansiedade após começar a sentir os
primeiros sintomas pode sim fazer diferença.

Além
de evitar o estresse, os demais fatores que favorecem o sistema
imunológico são: pratique atividade física; tenha uma boa
qualidade de sono; hidrate-se (abordaremos adiante); tenha uma
alimentação saudável; e evite o consumo de bebida alcoólica.

Ação
comunitária:
pode-se fazer campanhas educativas quanto à
importância do autocuidado para com o sistema imunológico. Como o
isolamento em si tende a ser estressante, a comunidade pode
desenvolver formas de apoio para aliviar essas atribulações. Para
quem pegou covid-19 e não está conseguindo manter um autocontrole,
uma palavra amiga (tomados os cuidados para evitar contágio) pode
ajudar muito.

2.
Enxágue as narinas e a garganta:

Afirmamos aqui que enxaguar as narinas e a garganta com água salinizada previne a covid-19. Mas, o que significa “prevenir”? Dentre os significados do dicionário, constam: “Dispor as coisas buscando evitar um mal, um dano: ‘é melhor prevenir do que remediar’; precaver-se, acautelar-se, preparar-se: ‘preveniu-se para encarar o inverno’ ”. Então, “lavar o nariz e a garganta para prevenir a covid-19” não significa que isso garanta que não se vá contrair a covid-19. Significa que se está adotando bons cuidados (assim como isolar-se, lavar as mãos, usar máscara etc.) para evitar contraí-la.

Gargarejos com água morna, sal e vinagre para prevenção da covid-19 já foram desqualificados como fake news, devido a não haver comprovação científica inequívoca (de toda forma esqueça o vinagre, por favor). Mas são muitos os médicos que prescrevem sprays de água salgada para quadros de gripe ou sinusite – porque esse enxágue remove a camada de muco que recobre as mucosas das narinas, enquanto que o gargarejo a remove na garganta (nas narinas a camada de muco retém ainda poeira). É claro que água salgada não matará o vírus, mas a camada de muco facilita a aderência do vírus às mucosas, e assim a sua remoção “dificultará a vida” do vírus.

O Dr. Albert Sabin, criador da vacina contra a poliomielite, apregoava a limpeza das vias aéreas superiores como fator de prevenção das doenças respiratórias virais; a esse respeito, vale a pena assistir ao vídeo com o depoimento de um médico brasileiro que conviveu com ele: https://www.youtube.com/watch?v=vRInuPdjiV8

Nos
estudos sobre os vírus (virologia) existe um parâmetro denominado
“dose infecciosa”, que é uma estimativa do volume (quantidade)
mínimo de um determinado vírus a partir do qual, em contato com o
organismo, se estabelecerá aquela infecção. A dose infecciosa
varia muito de vírus para vírus, desde a faixa da unidade/dezena
(caso por exemplo do vírus influenza, causador da gripe) até a
faixa do milhar/dezena de milhar (caso por exemplo do vírus HIV).

Qual
a dose infecciosa do novo coronavírus, para que a infecção por
covid-19 se estabeleça? Ninguém sabe ainda. Assim, vale muito a
pena investir em um procedimento que é simples e prático para
tornar “menos amistoso” ao coronavírus o ambiente do nariz e da
garganta. Na pessoa saudável, isso aumentará a quantidade de vírus
a partir da qual a doença se instalará; na pessoa já com os
sintomas iniciais, isso auxiliará o sistema imunológico a combater
a doença e evitar que ela complique.

O procedimento é simples: ferva água potável por pelo menos três minutos, e deixe esfriar. Quando estiver ligeiramente morna, para 300 ml de água (um copo bem cheio) adicione uma colherinha das de café de sal e meia colherinha das de café de bicarbonato de sódio, misturando bem (ajuste essas quantidades para seu maior conforto). Incline a cabeça para um dos lados de modo a que suas narinas fiquem na vertical, e injete a água salinizada na narina de cima, de modo a que escoe, por gravidade, pela narina de baixo (você pode usar uma seringa para injetar). Incline a cabeça para o outro lado, e repita o procedimento. Com o que sobrar da água, faça gargarejos para lavar a garganta. Você pode fazer essa lavagem uma vez ao dia, antes de dormir, e, caso pegue covid-19, de três a quatro vezes ao dia.

Uma ressalva: se você possuir um nebulizador de uso doméstico, não o utilize supondo que deva “limpar” os pulmões com água salinizada (ou com soro fisiológico, que é uma água fracamente salinizada) assim como faz com o nariz e a garganta. A nebulização não deve ser empregada na covid-19, por duas razões: nebulização é a inalação de uma névoa de microgotículas, e, como o vírus se transporta em gotículas, você poderá estar facilitando a migração dele do nariz e da garganta para dentro dos seus pulmões; além disso, na expiração a pessoa doente projeta no ambiente a névoa de gotículas, espalhando a contaminação.

Ação
comunitária:
pode-se fazer campanhas de esclarecimento sobre a
importância e a técnica de lavagem nasal. Pode-se distribuir
seringas (sem as agulhas) juntamente com bicarbonato de sódio,
alertando que cada seringa deve estar identificada para que não seja
usada por mais de um membro da família.

3.
Beba mais água:

Da
mesma forma que médicos recomendam aos seus pacientes com gripe ou
sinusite que apliquem sprays de água salinizada nas narinas e que
façam gargarejos, eles também lhes recomendam que se mantenham
hidratados. A hidratação tem efeito direto nas mucosas das vias
aéreas superiores, e é sabido que, se a pessoa se mantém com uma
sensação de ressecamento na boca, nariz e garganta, os sintomas da
gripe ou sinusite são piores.

Não
há porque ser diferente com a covid-19. Atrapalhe a vida do vírus,
mantendo suas mucosas hidratadas em vez de ressecadas, bem como ajude
o seu sistema imunológico a combatê-lo, bebendo no mínimo dois
litros de água por dia (atenção: não é porque Coca-Cola seja
líquida e seja produzida com água que ela hidrate o organismo,
muito pelo contrário; hidratação é para ser feita com água
mesmo). O sistema imunológico somente opera de forma ótima com a
ingestão diária dessa quantidade mínima de água.

Ação
comunitária:
campanhas de esclarecimento, e levar água potável
até quem não disponha dela.

4.
Deite de bruços:

Procure
na web por “covid bruços” ou “covid prona” (de “posição
prona”, que é o termo médico), e você verá que pacientes
hospitalizados são colocados de bruços a maior parte do tempo,
especialmente se estiverem intubados. Comparativamente com pacientes
que sejam mantidos deitados de barriga para cima, a melhora é
notável.

A
explicação para isto é que, na respiração normal, o ar somente
ocupa as partes da frente e de cima dos pulmões (as que ficam
“primeiro”), pouco chegando até as partes que ficam mais embaixo
e atrás (a parte “dos fundos” dos pulmões, por assim dizer). A
posição de bruços, por comprimir a parte “da frente” dos
pulmões, faz com que o ar se distribua melhor por todas as regiões
pulmonares, chegando até a parte “dos fundos”.

A
pneumonia da covid-19 se instala de forma silenciosa (há casos em
que nem febre a pessoa tem); quando se chega a sentir falta de ar é
porque a pneumonia já se agravou. Se antes disso a pessoa passar a
dormir e a repousar de bruços, ela estará preservando a sua função
pulmonar, e reduzindo o risco (ou a gravidade) de uma eventual
complicação.

Ao
se dar conta de que pegou a covid-19, a pessoa deve procurar dormir o
máximo de tempo possível de bruços, bem como se deitar de bruços
toda vez que for descansar. Se tiver somente os sintomas leves (a
grande maioria dos casos) deitar de bruços não terá feito
diferença, mas, se acabar complicando, os seus pulmões terão
sofrido menos dano.

Ação
comunitária:
campanhas de esclarecimento e informação.

5.
Meça sua saturação (oxigenação do sangue):

Há um meio de se detectar precocemente a fase inicial – e silenciosa – da pneumonia da covid-19, que é a medição da saturação de oxigênio no sangue, feita por um aparelho chamado oxímetro de pulso (é mais uma tradução apressada do inglês: deveria chamar-se “oxímetro de pulsação”), porque a pneumonia da covid-19 começa de imediato a reduzir estes níveis – muito embora a pessoa somente vá começar a sentir a “falta de ar” quando esses níveis já estiverem muito baixos (para saber mais, procure na web por “covid saturação” ou “covid oxímetro”).

O
oxímetro é como um “grampo” que se coloca no dedo da pessoa, e
alguns segundos depois já exibe o resultado no visor.

Os
valores normais de saturação situam-se entre 94% e 100%. Entre 89%
e 93%, os níveis já estão baixos, mas são ainda aceitáveis. Como
esses aparelhos podem apresentar uma margem de erro de até dois por
cento para mais ou para menos, um valor de 87% ainda estaria dentro
da margem – em suma, com uma saturação de 86% ou menos é grande
a possibilidade de você já ter começado a desenvolver a pneumonia,
e deve procurar atendimento médico imediatamente.

Todo
posto de saúde, bem como toda equipe local do Saúde da Família,
deve estar equipado com um oxímetro desses. Por isso, não será
difícil você e seus familiares conseguirem ser examinados. Caso
você disponha de cerca de 200 reais, poderá comprar o aparelho pela
internet. E boa parte dos celulares mais modernos possui função
oxímetro (atenção: é necessário calibrar), então os donos de
celulares último tipo já têm um oxímetro, apenas não sabem
disso.

Para
o teste, a pessoa deve estar com o dedo limpo e sem ferimentos, e com
a mão em repouso sobre uma superfície. Esmaltes de unha podem
distorcer o resultado, e unhas postiças impedem que o teste seja
efetivo.

Ação
comunitária:
Um exame de oxímetro leva poucos segundos, assim
um único aparelho pode servir para o monitoramento de toda uma
comunidade – com a devida atenção à higienização, que deve ser
feita somente com álcool isopropílico, pois álcool comum pode
danificar aparelhos eletrônicos como o oxímetro; aliás, a compra
de álcool isopropílico pela comunidade deve servir também para a
higienização dos celulares, tablets, notebooks, teclados e mouses
das pessoas, porque a limpeza com álcool 70 ou álcool em gel pode
vir a danificar esses dispositivos.

6.
Turbine a sua máscara de tecido:

Faça
com que a sua máscara de pano caseira fique com um poder de
filtragem (e de proteção) equivalente ao de uma máscara hospitalar
padrão N-95 (a melhor de todas), com essa providência simples:
coloque uma folha de filtro de café por dentro da máscara.

O
poder de filtragem do filtro de café é muito elevado, como se pode
ver neste quadro comparativo:

A
máscara de tecido apresenta um problema: após algum tempo, ela
passa a reter a umidade da respiração, tornando-se assim um
ambiente propício ao vírus – o ideal é que a máscara permaneça
o tempo todo seca. O filtro de café, além da sua maior filtragem,
retém também a umidade, mantendo seca a máscara de pano.

Um
filtro de café é uma folha dobrada ao meio e colada nas bordas.
Destaque as duas “meias-folhas” do filtro, e acomode uma delas
por dentro da máscara, cobrindo o nariz e a boca. A folha de filtro
deve ser trocada a cada duas horas, de modo a não acumular umidade.

Assista
também esse vídeo explicativo, produzido na USP:
https://youtu.be/oRzwKQxE-lk.

Ação
comunitária:
distribuição de filtros de café, com orientação
sobre como utilizá-los.

7.
Previna as microtromboses:

Além dos pulmões, a covid-19 ataca também o sangue, provocando microtromboses nos capilares, que são os vasos sanguíneos mais finos que irrigam a periferia dos tecidos do nosso corpo. A trombose é a formação de um coágulo (ou “trombo”) que bloqueia a livre passagem do sangue. Por esta razão a covid-19 provoca também enfartes, AVCs, disfunção renal e outros problemas (procure na web por “covid trombose”).

No
interior dos nossos pulmões, os capilares que chegam aos alvéolos
são extremamente finos (a espessura é menor que de um fio de
cabelo), para permitir a chamada troca gasosa: o CO2
trazido pelo sangue se desprende e sairá do corpo pela expiração,
enquanto que oxigênio inalado pela inspiração se liga ao sangue. O
calibre microscópico desses capilares favorece a ocorrência das
microtromboses que, ao se acumularem aos milhares, impedirão a troca
gasosa mesmo que o pulmão ainda esteja conseguindo se encher de ar.

Por
essa razão nos hospitais já se aplicam anticoagulantes aos
pacientes de covid-19. Contudo, a automedicação com anticoagulantes
adquiridos em farmácias pode ser muito perigosa. Por isso, você não
deve em hipótese alguma sair tomando remédios anticoagulantes sem o
devido acompanhamento médico.

Existe,
contudo, um anticoagulante natural, sem maiores contraindicações: a
salsa. Sim, aquele tempero. A salsa apresenta um efeito
anticoagulante peculiar, liquefazendo o sangue (tornando-o mais
“ralo”, por assim dizer). Como as propriedades anticoagulantes da
salsa ainda não estão bem compreendidas, somente foi possível
encontrar este vídeo: https://globoplay.globo.com/v/973841/.

Para prevenir as microtromboses, na eventualidade de uma complicação da covid-19 (lembrando que, ao longo de todo este texto, “prevenir” não significa “impedir” e sim “reduzir o risco de”), você pode desde já passar a ingerir salsa todos os dias (de preferência crua).

Você
deve contudo estar ciente que, na ocorrência de algum sangramento
(por exemplo um corte ou ferimento), levará mais tempo até o sangue
estancar. A salsa precisa ser vista como um medicamento, ainda que se
trate de um fitoterápico in natura em vez de um fármaco
industrializado. Nem por isso, deve-se subestimar o seu potencial
anticoagulante. Assim, o consumo diário de salsa implica riscos que
devem ser ponderados para grupos como grávidas, mulheres com
sangramento menstrual excessivo, hemofílicos, pessoas com úlceras
gástricas, que estejam para passar por cirurgias ou que pratiquem
atividades com risco de acidentes. Em caso de hospitalização por
covid-19, a equipe médica deve ser informada do consumo preventivo
de salsa com finalidade anticoagulante, e você deve insistir para
que sejam feitos exames dos seus parâmetros de coagulação antes
que lhe sejam ministrados outros anticoagulantes.

Por
ainda haver muito pouco conhecimento acerca da ação anticoagulante
da salsa, ao fazer uma busca na internet você encontrará alegações
de que ela teria propriedades coagulantes – quando é justamente o
oposto. Isso se deve a ser a salsa uma folha verde-escura, e à noção
estabelecida de que folhas verde-escuras (couve, espinafre etc.) são
ricas em vitamina K, que tem ação coagulante. Fato é que, além de
alguma vitamina K, a salsa contém algum outro princípio ativo que é
efetivamente anticoagulante.

Ação
comunitária:
esclarecimento quanto aos benefícios da salsa; a
comunidade pode ainda providenciar o abastecimento diário de maços
de salsa na quantidade necessária a suprir a todos.

8.
Previna a tempestade de citocinas:

A
chamada “tempestade de citocinas” na covid-19 é uma reação
inflamatória descontrolada nos pulmões, provocada pelo próprio
sistema imunológico que acaba entrando em pane ao tentar neutralizar
o coronavírus. Os pulmões vão se enchendo de líquido, sufocando a
pessoa.

O acúmulo de líquido nos alvéolos pulmonares causado pela tempestade de citocinas, juntamente com as microtromboses na malha de capilares de revestimento dos alvéolos que impedem o oxigênio de aderir ao sangue, são os fatores que levam ao colapso respiratório que é a principal causa de morte na covid-19.

Quando uma pessoa contrai a covid-19, o principal fator que irá definir uma evolução favorável ou desfavorável da doença é o estado geral do sistema imunológico. Pessoas com sistema imunológico em bom estado tenderão a ficar assintomáticas (e nem saberão que tiveram covid-19) ou poderão ter apenas os sintomas leves (tosse, febre, dor de garganta e fadiga) que em pouco mais de uma semana desaparecem. Pessoas com sistema imunológico em mau estado podem desenvolver pneumonia, caracterizada pela queda progressiva do índice de saturação do oxigênio no sangue. A pneumonia pode se agravar ao ponto de que se comece a sentir a “falta de ar”, e pode ainda acabar ocorrendo a tempestade de citocinas provocada pelo próprio sistema imunológico em desequilíbrio.

Substâncias
que atuam na regulação do sistema imunológico são chamadas
imunomoduladoras. Uma das principais, senão a principal dentre
todas, é o colecalciferol, mais conhecido pelo nome pelo qual foi
batizado há quase cem anos: a vitamina D.

A
vitamina D é gerada pelo próprio organismo (por isso é na verdade
um hormônio e não uma vitamina), na pele quando exposta ao sol.
Essa formação é mais efetiva quando a pessoa fica exposta ao sol
mais intenso (entre as 11h00 e as 14h00). Após atingida a “dose
diária ótima” de vitamina D formada, a pele como que “desliga”
o mecanismo de formação, mesmo que a pessoa permaneça sob o sol.
Essa dose diária ótima, por isso mesmo chamada de “dose
fisiológica”, estaria em torno de 10.000 UI, e o tempo de
exposição necessário para a formação da dose fisiológica, com a
pessoa na horizontal, com pelo menos 80% do corpo descoberto e sem
filtro solar, sob sol intenso, varia de cerca de quinze minutos para
as pessoas com pele mais clara até cerca de uma hora para as pessoas
com pele mais escura. Essa exposição necessita ser diária, para a
manutenção de níveis adequados de vitamina D no organismo.

Afora
pessoas que vivam no campo (e que ainda assim costumam trabalhar de
chapéu e camisa, para evitar a exposição ao sol), ninguém mais
pega sol assim. Nos centros urbanos, estima-se que mais de 90% da
população apresente deficiência de vitamina D. Níveis ótimos de
vitamina D na corrente sanguínea se situariam entre 60 e 80 ng/mL
(nanogramas por mililitro de sangue), sendo que abaixo de 25 ng/mL a
deficiência já é severa. Alarmantemente, a estimativa é que a
média para a população urbana esteja em torno de 15 ng/mL. O
resultado são doenças, porque o sistema imunológico não tem como
operar bem sem níveis minimamente adequados de um de seus principais
reguladores.

As pesquisas sobre a correlação entre os níveis de vitamina D no organismo e a evolução da covid-19 ainda se encontram em andamento, mas já se pode discernir uma direção clara: primeiro, constata-se que os óbitos por covid-19 se dão em pessoas com deficiência de vitamina D; depois, constata-se que a tempestade de citocinas igualmente ocorre em pacientes com deficiência de vitamina D.

Vários
médicos no Brasil já advogam a reposição da vitamina D como
caminho para a prevenção e o tratamento da covid-19.
Dentre
eles o Dr. Cícero Coimbra, da Universidade Federal de São Paulo; há
inúmeros vídeos dele no YouTube, como este, em que já se aborda o
papel da reposição de vitamina D no enfrentamento da covid-19:
https://m.youtube.com/watch?v=QROeQXPPwvU.

Mesmo
que não estivesse ocorrendo a pandemia de covid-19, repor a vitamina
D, um dos reguladores mais críticos para o sistema imunológico,
numa população onde é sabido que a imensa maioria das pessoas
apresenta deficiência dessa vitamina, já deveria ser uma questão
de saúde pública. No entanto, outros tantos médicos apresentam
objeções às técnicas de reposição com o argumento de que níveis
muito altos de vitamina D podem acarretar risco de disfunção renal
(estima-se que a partir de 100 ng/mL esse risco seria crescente).

Assim,
uma vez que a dose fisiológica (dose diária natural) seria de cerca
de 10.000 UI, uma reposição com doses diárias deste valor seria
segura, e demoraria cerca de três meses para que uma pessoa com
deficiência de vitamina D chegasse até os níveis adequados. Outras
técnicas preconizam doses maiores de 50.000 UI a intervalos também
maiores de uma vez por semana, levando também em torno de três
meses.

A
explicação para essa demora é que a vitamina D tende a se
depositar nos tecidos gordurosos do organismo, com apenas as “sobras”
desse processo de absorção pela gordura indo parar na corrente
sanguínea. Assim, indivíduos obesos demorarão mais tempo para
atingir os níveis adequados do que indivíduos magros.

Uma pessoa com covid-19 que complica (pneumonia), mesmo ao início dessa complicação (queda nos níveis de saturação do oxigênio) não pode esperar dois ou três meses para a reposição. Argumenta o Dr. Coimbra que nesses casos deveriam ser aplicadas 600.000 UI, em dose única. Segundo ele, essa dose elevada “encharca” rapidamente os tecidos gordurosos do organismo com a vitamina D, fazendo com que o nível na corrente sanguínea chegue, também muito rapidamente, a um patamar adequado. Para pessoas excessivamente magras, e para crianças, a dose deve ser menor.

Ação
comunitária:
algumas apresentações da vitamina D requerem
receita médica para venda, enquanto que outras estão rotuladas como
suplementos e são vendidas livremente (inclusive em sites de lojas
de departamentos); a comunidade pode planejar e providenciar para
sejam ministradas doses altas (de 600.000 UI, ou ajustadas) às
pessoas que venham a complicar, especialmente aquelas que não
consigam internação hospitalar por falta de leitos; quanto à
reposição, pode-se negociar com laboratórios de análises clínicas
custos menores para que um volume maior de exames dos níveis de
vitamina D sejam coletados na própria comunidade, e assim dosar em
especial as pessoas pertencentes aos grupos de risco, de modo a
acelerar com segurança a reposição para elas; a comunidade pode
ainda buscar junto a redes de drogarias ou mesmo aos fabricantes
descontos, ou até doações, para as doses de reposição.

9.
Se você for diabético, capriche no controle:

Um
dos maiores problemas da diabetes é que será somente no futuro que
a doença cobrará os preços pelos níveis elevados de hoje de
glicose no sangue. Assim, os diabéticos conseguem chegar a uma
convivência adaptativa com a sua glicose alterada sem precisar ter
de fazer maiores sacrifícios em termos de restrições alimentares,
especialmente graças a medicamentos de ação rápida cuja dose
acaba ajustada a cada refeição, conforme se abuse menos ou mais de
alimentação inadequada.

Essa
condição gera uma dicotomia entre a diabetes “de momento”
(medida pela glicemia) e a diabetes “acumulada” (medida pela
hemoglobina glicosilada, ou glicada, cujo resultado expressa uma
espécie de “média” dos níveis glicêmicos havidos ao longo dos
últimos três a quatro meses).

Ainda
não foi rigorosamente comprovado, mas já há seguras indicações
de que a covid-19 complica especialmente em idosos, cardíacos,
hipertensos, diabéticos e obesos, devido a todos esses grupos
apresentarem vulnerabilidades em sua circulação vascular periférica
(capilar). Especificamente no que toca aos diabéticos, porém, pode
não ser apenas isso: uma pesquisa na Itália (também ainda sem
comprovação) aponta haver alguma relação entre complicações da
covid-19 e hemoglobina, bem como que, relativamente aos diabéticos,
quanto maiores os níveis de hemoglobina glicosilada (ou seja, quanto
mais precário estiver sendo o controle ao longo do tempo), maior a
propensão para essas complicações.

Para
um diabético com controle descuidado, melhorar esse controle somente
terá reflexo no seu nível de hemoglobina glicosilada dentro de três
meses. Há projeções, porém, de que a pandemia de covid-19 poderá
se estender até o ano de 2022, especialmente se uma vacina eficaz
não vier a ser desenvolvida (até agora nada garante que será).
Então, vale muito a pena investir desde já em um melhor controle.

Ação
comunitária:
campanhas de orientação e esclarecimento; a
comunidade pode facilitar a chegada de alimentos adequados (verduras
e legumes) àqueles diabéticos mais necessitados.

10.
Soberania sobre a própria vida e saúde não se delega:


tratamos aqui de medicamentos anticoagulantes (o princípio ativo,
ainda pouco conhecido, presente na salsa) e imunomoduladores (a
vitamina D).

Porém,
em termos de medicamentos antivirais (ou seja, aqueles que combatem
diretamente o vírus), não há nada a recomendar. Ainda assim,
existem centenas de medicamentos sendo testados (inclusive
ministrados aos pacientes nos hospitais), mas ainda não há nenhum
que se possa, minimamente (isto é, antes mesmo da devida comprovação
científica), apontar como eficaz.

Numa
situação limite, em que o paciente agoniza desenganado, é
compreensível que ele (ou a família) se disponha a assumir os
riscos de uma experimentação. Numa situação ainda mais limite, em
que a pessoa agonize do lado de fora do hospital porque leito
disponível não há, é ainda mais compreensível.

Mas,
recomendar experimentação para pessoas apenas com os primeiros
sintomas (das quais cerca de 80% ficarão curadas por si sós, de
qualquer modo), com medicamentos que já passaram por testes porém
sem que tenha sido verificada eficácia, e que ainda por cima
acarretem efeitos colaterais graves, é um absurdo completo.

Estamos
falando, é claro, da cloroquina e da hidroxicloroquina. De acordo
com o estágio atual das pesquisas, nenhuma das duas tem eficácia
sobre a covid-19. E ambas podem causar arritmia cardíaca, que pode
levar à morte súbita por parada cardíaca (já aconteceram vários
casos).

Se tal recomendação já é absurda, a conduta de alguns grupos de distribuir comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina em comunidades carentes, como um preventivo (!) para a covid-19, é nada menos que criminosa. Desgraçadamente, isso vem ocorrendo Brasil afora.

Se
pessoas assim aparecem distribuindo esses comprimidos na sua
comunidade, parta do princípio de que elas estão dispondo, de forma
invasiva e abusiva, da sua saúde, da sua vida, e da saúde e da vida
dos seus familiares. Assuma, então, que isso torna legítimo você
empregar quaisquer meios que entenda como necessários a expulsá-las
da sua comunidade. A ação comunitária, aqui, será exercer essa
autodefesa de forma coletiva.

*
* *

Foi
preciso que a Natureza nos impusesse um vírus para que ficasse
evidente algo que no íntimo podíamos pressentir, mas não víamos:
uma das esferas da vida em sociedade (ou das instituições, no
sentido daquilo que se encontra instituído, formalizado), a saúde
pública, pode até existir para um monte de outras finalidades, mas
na prática inexiste para cumprir a sua razão de ser: prover saúde
às pessoas.

Saúde
pública não é só comprar respiradores às pressas (sabe-se lá a
que preço). Saúde pública, de verdade, é também haver, para
operar adequadamente cada respirador, uma equipe de profissionais de
saúde treinados, capacitados, equipados, reconhecidos, valorizados e
respeitados. Aonde isso ocorre?

Saúde
pública não é promover distanciamento social estilo
“faz-quem-quer”, com empregadas domésticas consideradas
“serviços essenciais” e com comércios e igrejas reabrindo na
base do quem pode mais. Saúde pública, de verdade, é ter a postura
de impor lockdown, amargo porém necessário – quanto mais
amargo, por menos tempo necessário –, com multas e até detenção
para os violadores. Onde isso foi feito, ou sequer tentado?

Em
lugar nenhum do mundo, salvo aqui, saúde pública são pessoas
recusadas nos hospitais públicos e mandadas embora para morrerem em
casa (de preferência por “insuficiência respiratória” e não
por covid-19 para não engordar as estatísticas – não é mesmo,
senhores prefeitos e governadores?), enquanto sobram leitos vagos nos
hospitais privados.

O que ainda não ficou evidente, mas será só uma questão de tempo para que também fique, é que todas as demais esferas da “vida em sociedade”, ou seja, as instituições, estão em metástase, e irão se esfarelar. Então, nas periferias, vilarejos, favelas, assentamentos e aldeias deste lugar a que ainda chamamos de país, cada vez mais as pessoas precisarão contar umas com as outras, e tornar real que os coletivos em que juntas vivem mereçam ser chamados de comunidades.

Então, que a auto-organização comunitária voltada a cuidados de saúde que está aqui sendo proposta não se esgote em si mesma. Que ela seja uma semeadura, que venha a frutificar em muitas outras dimensões da organização da vida comunitária. Que, para além de ajudar a lidar com a pandemia da covid-19, ela venha também reforçar laços, estabelecer solidariedades, construir identidades coletivas.

Que este “Bacurau do autocuidado” seja o prenúncio do Bacurau propriamente dito, o da autodefesa – porque será preciso, mais dia menos dia.

* * *

Em
memória de meu querido pai, José Bacchi Naveira (1925-2018), médico
que devotou a sua vida a atender os desassistidos, e que nunca deixou
de prestar atendimento a um desvalido que o procurasse.

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Fonte outraspalavras.net

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