Uncategorized

‘Nunca tive tanto medo de morrer’, diz Susana Naspolini sobre a Covid-19

Blog Giga Medical

“Soube que estava infectada pelo novo coronavírus por acaso. Descobri um câncer na bacia em janeiro deste ano, e desde então estou em tratamento. Por causa da pandemia, porém, parei de ir a São Paulo, onde comecei o acompanhamento médico. Meu oncologista recomendou, então, que fizesse as sessões de quimioterapia na São Vicente, na Gávea. Como a clínica exige teste de Covid-19 para a entrada, fiz o exame. E o resultado deu positivo. O engraçado é que eu estava supertranquila, trancada em casa. Achava que não tinha a menor chance de ter contraído essa gripe. Quando soube que estava com o vírus, entrei em pânico! Eu só tinha saído de casa duas vezes: uma para ir ao oncologista e outra para tomar as injeções. Antes mesmo do uso obrigatório da máscara, até para ir à lixeira, saía com o rosto protegido, e com luvas. Mas o coronavírus é traiçoeiro. Meu médico disse que, provavelmente, ele veio em alguma compra do mercado ou da padaria.

Susana Naspolini Foto: Guito Moreto/Agência O Globo
Susana Naspolini Foto: Guito Moreto/Agência O Globo

É o quinto câncer que enfrento. Já lutei contra um linfoma aos 18 anos. Com 37, tive tumores na mama e na tireoide. E, ao completar 43, encontraram outro carcinoma na mama. Em todos eles, apesar do baque enorme com o diagnóstico, sabia que, de alguma forma, tinha tratamento. Eu seguia direitinho as recomendações dos especialistas, cuidava da alimentação e tinha noção de que, se fizesse a minha parte, e com a ajuda de Deus, claro, tudo sairia bem. Receber o resultado positivo para a síndrome respiratória aguda grave foi muito difícil. O.k., fui contaminada, e, agora, como cuido disso? Os médicos não sabem. É uma doença que não tem o que a gente fazer. É ficar em casa e observar os sintomas. Nunca me senti tão impotente na vida. Nem com os cânceres fiquei assim. Como disse, eu me sinto cuidada já que posso fazer quimioterapia, tomar injeções, fazer exames de imagens. E com o coronavírus? É só rezar para não ter complicação alguma.

 

Vivi os 15 dias mais angustiantes da vida. Eu me sentia uma bomba ambulante. Tinha medo de ir ao elevador para receber alguma mercadoria e infectar as pessoas. Depois, fiquei na expectativa de piorar. Eu tive sintomas leves. Comecei com uma dor de cabeça. Como tomo muitos remédios, achei que fosse algum efeito colateral. Também tive dor de garganta, um incômodo nas pernas e uns calafrios, mas sem febre. Rezei muito para não ter complicação. Durante as minhas orações diárias do terço, perguntava para Deus: ‘Será que é disso que eu vou morrer? Eu venho lutando tanto na vida para perder a batalha para a Covid-19?’.

 

Tive muito pavor de ter falta de ar e precisar ser entubada. Cheguei a avisar a alguns amigos que a Julia, minha única filha e que tem 14 anos, poderia ligar para eles a qualquer hora. Pensava: ‘Será que vai dar tempo de pedir um táxi? Será que é hoje que vou acordar no meio da noite com falta de ar?’. Fiquei com tanto medo que aluguei um oxímetro para monitorar as minhas taxas no sangue. Quando assistia a alguma notícia que me deixava mais ansiosa, verificava logo no aparelho se estava tudo bem. Tive medo ainda de infectar a minha filha. Andava de máscara o dia todo dentro de casa. Mas ela fez o teste e também deu positivo. Por um lado, fiquei mais relaxada. Por outro, fiquei com receio de ela ter complicações.

Mas a Julia também teve sintomas leves: dores de cabeça e uma dor na perna que a impedia de ficar em pé por muito tempo. Cheguei a levantar no meio da noite algumas vezes para ver se ela estava bem. Tentei ser forte e manter a alegria, mas confesso que chorei várias vezes escondida. Afinal, não podia passar insegurança para ela. Esse vírus abala a gente emocionalmente. A gente fica muito frágil. Recebi muito apoio da minha família, dos amigos e dos colegas de trabalho e isso, claro, ajudou muito. Mas a verdade é que ninguém tinha nada o que fazer.

LEIA MAIS:‘Cin cin, Enrico!’: italiano revela os bastidores de maior viral da quarentena no mundo

‘Só não postei tudo para não incentivar’, diz Fernanda Paes Leme sobre ‘presentes’ no isolamento

Eu sou grupo de risco, tenho a imunidade baixa por causa do câncer, e sei que fui abençoada por não ter sofrido com os sintomas mais agressivos da doença. No meu livro ‘Eu escolho ser feliz’ (Editora Agir), falo das lições que aprendi com os cânceres. A Covid-19 também me ensinou muito. Saí dessa experiência querendo ser uma pessoa melhor. Pretendo fazer o bem para as pessoas, e ajudar ao próximo, seja com uma cesta básica, seja com uma palavra de carinho. Acredito que o coronavírus veio para gente dar às coisas o seu devido valor. O que importa são as minhas relações, os meus amigos e não o que eu tenho. Do que adianta ter a TV que eu quero? Ter todo o conforto? São só objetos materiais. Se você precisar de um respirador, o aparelho é o mesmo no hospital público ou no particular. Acho que esse vírus veio para baixar a bola de muita gente.

 

O mundo estava muito soberbo. De que adianta ter fama? Beleza? Dinheiro? Poder? Isso não faz você especial, nem melhor do que ninguém. Não existem diferenças, somos todos iguais. Eu reconheço que tenho muitos defeitos. E, posso dizer que, a partir de agora, vou me esforçar mesmo para ser uma pessoa melhor, mais humilde, com um olhar mais atento ao próximo, menos arrogante. É um exercício diário. Toda situação difícil vem para nos ensinar algo.

Outra lição que tirei dessa experiência é a de que não controlo nada. Na verdade, já venho trabalhando essa questão há algum tempo, ao receber os diagnósticos de câncer e a notícia da morte do Maurício (Torres, ex-marido que era jornalista esportivo e morreu em 2014, aos 41 anos, vítima de um problema cardíaco. Dessa união, nasceu Julia). Mas essa gripe lacrou, parece que veio para dar um ponto final nessa minha falha. Sou do tipo que planeja tudo nos mínimos detalhes. Se vou encontrar com uma amiga, antecipo na minha cabeça o assunto da nossa conversa, o que podemos fazer depois de papearmos… Estou sempre querendo saber como as pessoas vão, onde e com quem estão… Que bobagem, ? Na verdade, a gente não controla nada. Tive muito medo de morrer, mas, graças a Deus, superei essa doença. Agora, me sinto obrigada a retribuir essa bênção de alguma forma.”

 

Giga Medical – Trazendo o melhor em equipamentos de proteção e hospitalares

Fonte oglobo.globo.com

Related Posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *