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#Fiqueemcasa: Tudo que você precisa saber sobre parto em casa – Revista Crescer

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recém-nascido no colo da mãe (Foto: Getty Images)

(Foto: Getty Images)

Qual é o lugar mais seguro para um bebê vir ao mundo? A resposta varia, mas, até pouco tempo atrás, a maioria das pessoas diria: a maternidade. No entanto, desde o início da pandemia, os estabelecimentos médicos passaram a ser evitados por quem quer se proteger do novo coronavírus. Isso tem afetado a escolha de muitas famílias que, em meio a tantas mudanças, se preparam para trazer um bebê ao mundo.

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“No começo da gestação eu pensava que o hospital era mais seguro. Quando começou a quarentena, ouvi que bebês foram contaminados nesses locais, e decidi me informar sobre como seria um parto domiciliar. Procuramos uma equipe especializada, pesquisamos muito e hoje me sinto segura”, diz a administradora Elisabete de Oliveira Souza, 37 anos, grávida de 20 semanas. Ela faz parte de um grupo crescente de mulheres que optam por ter seus filhos em casa, em meio ao rápido aumento de casos da covid-19 no Brasil.

“Notamos um crescimento das pacientes que questionam sobre a possibilidade de ter um parto em casa por conta da pandemia. A maioria por medo de não ter leito de hospital disponível ou por achar que em casa estarão mais protegidas”, relata o obstetra Paulo Noronha, da clínica Espaço Mãe, em São Paulo (SP).

Segundo a obstetriz Ana Cristina Duarte, idealizadora do Coletivo Nascer (SP), que atende partos humanizados e coordena o Simpósio Internacional de Assistência ao Parto (Siaparto), um terço das mulheres que planejavam ter seus partos hospitalares com a equipe mudou de ideia e optou pelo domiciliar, no contexto da pandemia. No caso da ComMadre, outra equipe que assiste partos domiciliares, também em São Paulo, cidade com o maior número de casos no Brasil, a procura por esse tipo de atendimento cresceu cerca de quatro vezes no mês de maio.

O Ministério da Saúde não tem dados nacionais dos registros de partos domiciliares, mas, mesmo com os índices de aumento trazidos pelos entrevistados para esta reportagem, eles ainda são minoria. Na cidade de São Paulo, por exemplo, dos 177,6 mil nascimentos registrados em 2019, 790 ocorreram em casa – tanto partos planejados quanto acidentais, segundo a Secretaria Municipal de Saúde –, o que representa menos de 0,5% do total. Ainda não é possível verificar aumento na comparação entre 2019 e 2020.

PORTA DE ENTRADA
Ainda que nascer desta forma tenha sido a única opção das mulheres por séculos, já que o parto hospitalar é algo relativamente recente na história da humanidade (os partos começaram a ser feitos em hospitais no século 19, quando as primeiras escolas de medicina foram fundadas no Brasil), há o estigma de que parir em casa é algo alternativo e até perigoso. No entanto, a ciência tem mostrado que não é bem assim. Um grande estudo internacional, conduzido pela Universidade McMaster, em Ontário, no Canadá, e publicado no periódico científico Lancet, no final de 2019, revisou 21 pesquisas, desde 1990, comparando resultados de aproximadamente 500 mil partos domiciliares, em diferentes países, e concluiu que nascer em casa é tão seguro quanto no hospital, nas gestações de risco habitual (quando o pré-natal é de qualidade, com todos os exames normais.)

Para a professora de obstetrícia e ginecologia Eileen Hutton, diretora fundadora do McMaster Midwifery Research Center e primeira autora do artigo, o estudo joga luz em algo importante: “Cada vez mais mulheres em países com bons recursos escolhem o parto em casa, mas as preocupações quanto à segurança persistem. Essa pesquisa demonstra claramente que o risco não é diferente quando o parto é em casa ou no hospital”.

No Brasil, apesar de o Conselho Federal de Medicina não proibir expressamente a presença do médico no ambiente domiciliar, a recomendação do órgão é que o parto ocorra em ambiente hospitalar,“ de forma preferencial por ser mais segura”.

Bebê segurando mão (Foto: Getty Images)

(Foto: Getty Images)

DECISÃO CONSCIENTE
Vale lembrar que escolher ter o filho em casa deve levar em conta diversos fatores para além da pandemia, como as condições de saúde da mãe e do bebê. “É necessário que seja uma gravidez considerada de risco habitual, sem nenhuma patologia, como diabetes ou hipertensão, um bebê que esteja do tamanho adequado, na posição cefálica, não seja prematuro e que não tenha nenhuma má formação. Esses são critérios que observamos”, afirma Thais Bernardo, parteira da ComMadre (SP). Também não são elegíveis ao parto domiciliar as grávidas de gêmeos e, em tempos de pandemia, gestantes que já tenham tido covid-19 ou estejam com sintomas gripais. Para a obstetriz Ana Cristina Duarte, “quem pode orientar a mulher se ela é ou não elegível ao parto domiciliar é uma equipe que esteja habituada a trabalhar com isso”.

Um outro ponto importantíssimo na decisão do parto domiciliar é o desejo genuíno da mulher. “É fundamental que ela sinta realmente que aquele lugar inspira segurança e confiança. Se houver alguma sombra de incerteza, talvez não seja o mais adequado”, explica a obstetra Cátia Chuba, da Clínica Tobias, especializada em Medicina Antroposófica, em São Paulo. Foi o caso da psicóloga Juçara Rodrigues Dias, 32. Ela programava o parto em uma maternidade, mas, com a covid-19, tudo mudou. “Quando estava com quase 38 semanas, comecei a ficar com muito receio de ir para o hospital e pensei no parto em casa. Mas esse nunca foi o plano; não nos preparamos para isso, aquele pensamento era pautado pelo medo, apenas. Por isso, depois de conversar bastante, a parteira nos alertou de que talvez esse não fosse o melhor caminho para nós”, conta. João Pedro nasceu dois dias depois da decisão, em um hospital. “Foi um parto tranquilo, eu e ele estamos ótimos e sinto que ficou uma se- mentinha para considerar o parto domiciliar em uma próxima gestação”, diz.

Por outro lado, há gestantes que conhecem a possibilidade do parto domicilar por causa da pandemia, mas, depois, enxergam a escolha de outra forma. Foi o caso de Elisabete, do começo da reportagem. “O primeiro motivo para a decisão foi, sim, o coronavírus, mas, hoje, eu e meu parceiro não nos vemos recebendo nossa filha em outro lugar que não seja a nossa casa”, conta.

BENEFÍCIOS X ACOLHIMENTO
Diversos estudos têm mostrado que o nascimento domiciliar está associado à redução do risco de cesárea, de intervenções desnecessárias e de parto instrumental. “Os hospitais, em sua maioria, seguem protocolos de atendimento que incluem intervenções, que nem sempre são necessárias, e que podem levar a outras intervenções, em um efeito dominó. É o caso, por exemplo, da ocitocina sintética, o famoso ‘sorinho’, aplicado para aumentar as contrações uterinas e acelerar o trabalho de parto. Isso, no entanto, pode gerar contrações excessivas, diminuir a oxigenação do bebê e levar ao sofrimento fetal. É possível, ainda, ocorrer a sobrecarga do músculo uterino, que aumenta as chances de uma hemorragia pós-parto. Essa é uma intervenção que não acontece no ambiente domiciliar”, diz a obstetriz Fernanda Tambellini, fundadora da equipe Comparcitas Parto Humanizado (SP).

“Nos países onde o parto domiciliar é integrado ao sistema público de saúde – o que não é o caso do Brasil –, ele tem sido uma excelente alternativa em tempos de pandemia, para que as mulheres não se exponham saindo de casa e enfrentando o ambiente hospitalar”, afirma a obstetra Melania Amorim, pesquisadora e professora da Universidade Federal de Campina Grande (PB), e uma das autoras das Diretrizes Brasileiras de Assistência ao Parto Normal e à Operação Cesariana, do Ministério da Saúde.“A grande limitação é o acesso. Trabalho dentro do Sistema Único de Saúde e não vejo como oferecer essa alternativa a todas as mulheres”, afirma.

Em muitos países europeus, o atendimento domiciliar é uma extensão do atendimento médico, quando há necessidade. “No Brasil, não há um modelo de assistência articulado para o parto domiciliar”, diz a parteira Maíra Bittencourt, que atua no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde na equipe La Mare (SP). “Na Europa, a parteira vai para a casa da mulher, avisa o hospital e, se houver necessidade de transferência, a equipe já está esperando. Aqui, isso só é possível para quem pode pagar por uma equipe médica de retaguarda. Se não, em geral, você é muito mal recebido no plantão hospitalar”, explica.

OUTROS PLANOS
Sendo assim, é preciso ter um orçamento capaz de manter uma ambulância o tempo todo na porta, enquanto está em trabalho de parto?“ Não. As parteiras levam uma série de equipamentos e insumos para atender a eventuais urgências, além de terem capacitação para esse atendimento emergencial. Além disso, a maioria dos problemas que acontecem no trabalho de parto não ocorrem de repente, eles dão sinais. Então, diante de qualquer alteração, é possível fazer uma transferência com certa tranquilidade”, explica a obstetriz Fernanda, da Comparcitas. Ainda assim, é fundamental planejar com cuidado e segurança, para se preparar para possíveis intercorrências. Isso inclui, por exemplo, definir um plano B, um hospital para o qual a mulher gostaria de ser transferida caso sinta, por exemplo, necessidade de uma analgesia (que não pode ser aplicada em casa), e até um plano C, um hospital localizado a até 15 minutos de distância, para onde a mãe e o bebê podem ser levados em caso de emergência.

A fisioterapeuta Aline Messias Silva Cavaloti, 31, planejava um parto no hospital, mas, com o início da pandemia, teve receio. “Não fazia mais sentido para mim, não sentia segurança. Entrei em pa- rafuso quando tudo aconteceu e comecei a estudar para saber se seria possível um parto domiciliar. Claro que temos um hospital de retaguarda, mas agora estou mais tranquila com essa escolha”, diz ela, grávida de 36 semanas.

No Brasil, não existe uma legislação específica para o parto em casa – nem há um modelo de assistência obstétrica que preve- ja esse tipo de atendimento senão por meio dos recursos da família –, mas é indispensável haver pelo menos dois profissionais considerados técnicos, que podem ser uma obstetriz, enfermeira obstetra ou médico obstetra. Também é comum a contratação de uma doula, que ajuda a garantir o conforto e a reduzir a dor com métodos não farmacológicos. Há ainda quem opte por contratar um pediatra, mas isso não é obrigatório, já que obstetrizes e enfermeiras obstetras estão aptas a prestar os primeiros atendimentos ao recém-nascido, e inclusive indicar o Apgar – teste que avalia os sinais de vitalidade ao nascer. Os pais podem escolher um pediatra antes e agendar a consulta inicial na primeira semana de vida.

Bebê no colo da mãe (Foto: Getty Images)

 (Foto: Getty Images)

PARTO HOSPITALAR EM TEMPOS DE PANDEMIA
Se você está aí se perguntando se só em casa o nascimento do seu filho será seguro, por causa do novo coronavírus, e não invasivo, respire ali- viada. É, sim, possível ter um parto respeitoso e com total segurança no hospital. O movimento da humanização tem mudado, aos poucos, alguns protocolos hospitalares e a sua infraestrutura. Há cada vez mais instituições, particulares e na rede pública, que dispõem de banheira, bola, aromaterapia e cromoterapia como ferramentas para o alívio não farmacológico da dor, além de permitirem a entrada das doulas, pro- fissionais que atuam para o conforto físico e emocional da mulher.

Durante a pandemia, novas recomendações passaram a ser adotadas, como a alta precoce – sempre que possível, 24 horas após o nascimento. Já comum em equipes humanizadas antes mesmo da covid-19, a prática tem sido usada em grandes maternidades em São Paulo, por exemplo.

Outra mudança é o uso de paramentação (como máscaras e aventais) pelos profissionais, que já estava há anos em desuso no contexto do parto humanizado e voltou a ser recorrente, inclusive em partos domiciliares. Há ainda a não recomendação de visitas, tanto na maternidade quanto em casa, pelo menos enquanto durar o isolamento social.

A redução na quantidade de profissionais na sala de parto é outra orientação. Algumas maternidades restringiram a entrada de fotógrafos e da doula. Então, antes de tudo, informe-se sobre a situação atual do hospital escolhido. Dica importante: defina um acompanhante de backup, para o caso de a sua primeira opção apresentar sintomas do coronavírus no momento do parto. Quando a própria gestante é diagnosticada com a covid-19 ou suspeita, ela precisa seguir protocolos diferentes e rigorosos dentro do hospital.

“Criamos fluxos separados de atendimento, que garantem segurança para os pacientes e profissionais. Ao chegar, todos têm a temperatura medida, passam pela triagem e pacientes com queixa respiratória são conduzidos a áreas separadas”, explica o obstetra Alberto d’Auria, da Maternidade Pro Matre Paulista. Os profissionais que atendem os dois grupos também não se misturam – assim como as salas e os equipamentos. Médicos que acompanham partos de mulheres sintomáticas usam equipamentos de proteção individuais específicos, como óculos e face shield (máscara que parece um escudo).

Segundo a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), gestantes sem dificuldades respiratórias importantes, ainda que tenham covid-19, podem optar pelo parto normal. Já nos casos em que a mãe está em estado grave, a cesa- riana pode ser indicada. Apesar das evidências científicas sobre a segurança do parto domiciliar, a Febrasgo afirma que “o parto realizado em ambiente hospitalar é capaz de assegurar melhores chances de cuidado à vida e à saúde da parturiente e do nascituro, sendo mais seguro”, inde- pendentemente da pandemia.

DECISÃO FINAL
Se ter um bebê em condições normais já é um desafio, e cada escolha faz diferença entre riscos e benefícios, quando o momento coincide com uma crise sanitária mundial, o peso fica maior. Como tomar a melhor decisão para você e seu filho?

“A pandemia trouxe incertezas para todos. É difícil ser protagonista de escolhas tão importantes em um cenário assustador”, diz a psicóloga Mariana Zanolini, criadora do Projeto Afago Materno (SP). “Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o parto por si só é incerto; pode ser que não saia como planejado, independente da pandemia. O melhor é se cercar de uma equipe que a apoie em todo o processo, que conheça suas preferências e seus medos, para que as decisões sejam mais leves”, diz a psicóloga.

E a obstetra Melania Amorim completa: “É fundamental que a escolha de dar à luz em casa seja uma necessidade íntima, uma decisão pessoal e intransferível, e não feita baseada no medo”. Por isso, abra o seu coração, converse com seu médico, companheiro e com quem você confia e foque no essencial: que é ter seu bebê nos braços, cheio de saúde.

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OUTRAS FONTES: GRUPO SANTA JOANA (SP) (SANTA JOANA E PRO MATRE), REDE D’OR SÃO LUIZ, HOSPITAL ALBERT EINSTEIN (SP), PERINATAL MATERNIDADE (RJ),
CASA ANGELA E AMPARO MATERNAL (SP)

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Fonte revistacrescer.globo.com

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